"Incerteza e criatividade. Educar para a sociedade do conhecimento" por Daniel Innerarity

Palestra do filósofo e ensaísta Daniel Innerarity  intitulada «Incerteza e Criatividade. Educar para a sociedade do conhecimento»* (ver artigo em Catalão) e tradução do resumo dessa palestra (a partir daqui).

* Integrada nos Debates de Educação são uma iniciativa da Fundación Jaume Bofill e da Universitat Oberta de Catalunya e conta com a colaboração do MACBA: Museu d'Art Contemporani de Barcelona que pretendem refletir sobre o futuro da educação. A palestra foi realizada a 11 de Maio de 2010. O vídeo tem uma duração de 1h.18m.



O conceito do que significa ser educado evoluiu ao longo do tempo. De acordo com cada época, ser educado significou atingir a perfeição, dominar um corpo harmonioso de conhecimentos ou ser crítico. Hoje em dia, na sociedade da informação, significa ser criativo. No entanto, esta nova sociedade é frágil e destinada a ser atormentada pela ignorância e pela incerteza.



1. O que é a sociedade do conhecimento? Quais são as suas características definidoras?
  • A riqueza já não se refere somente a recursos físicos. A riqueza consiste no poder de controlar o conhecimento. Novas formas de conhecimento impregnam as atividades sociais. 
  • Assistiram-se a mudanças nas formas de conhecimento que mais valorizamos. Atualmente são menos valorizados os saberes cumulativos e preceptivos (que siga um conjunto de normas estabelecidas que são simplesmente aplicadas) e mais valorizados aqueles saberes baseados na criação de conhecimento, reflexivos e fundados no espírito crítico. Não é uma forma empírica de conhecimento, mas antes um que é produzido em processos ativos de aprendizagem, que geram expectativas de aprendizagem e não normas. 
  • Multiplicaram-se o número de atores que geram conhecimento pericial. Anteriormente o conhecimento era património de poucos indivíduos ou instituições dedicadas a criar conhecimento (a universidade ou a ciência tinham o monopólio do conhecimento). Hoje em dia, instauraram-se mecanismos de reflexão, de investigação e de inovação em todos os sectores/esferas e âmbitos sociais. 
  • O conhecimento que procuramos não é o conhecimento pessoal, mas antes o conhecimento processual. O objetivo já não é que as pessoas sejam inteligentes, mas antes que a sociedade seja inteligente e que a tecnologia que utilizamos seja inteligente. A inteligência não é a soma total da inteligência individual, mas antes uma forma de inteligência que só pode ser atingida coletivamente (por exemplo, de que serve contratar a maior estrela para a equipa se esta não funcionar?) 
  • Uma das características principais da sociedade do conhecimento é que na realidade é a sociedade do desconhecimento. A ignorância desempenha um papel fundamental. Nunca temos toda a informação. Não sabemos pouco mas não sabemos o suficiente para a complexidade dos atividades que encetamos e objetivos que perseguimos. «Estamos metidos em apuros». 
  • Neste contexto de ignorância e incerteza temos de actuar. Temos de saber gerir a falta de conhecimento. Temos de agir mesmo que não tenhamos toda a informação (por exemplo, os políticos decidem encerrar o espaço aéreo antevendo o perigo das nuvens de cinza do vulcão islandês; no entanto não sabem realmente se a nuvem é perigosa para a navegação aérea). 


2. Paradoxos e inconvenientes da sociedade do conhecimento
a) O nosso entendimento da realidade não é imediato. Quase tudo o que sabemos é algo que ‘ouvimos dizer’. Contudo, este facto permite-nos saber mais do que se soubéssemos coisas que nós próprios tivéssemos directamente experienciado. É um desenvolvimento positivo, mas também implica que estamos manipulados por um conhecimento que não adquirimos com a nossa própria experiência.
b) Sofremos um processo de infotoxicação. O problema não é a ignorância, mas antes um excesso de informação que causa confusão. O inimigo da inteligência é demasiada informação. Nós estamos extremamente informados mas não estamos bem orientados. Vivemos num mundo de informação-lixo que terá de ser separada de entre a boa informação.

c) Somos consumidores dóceis e submissos. Vivemos numa sociedade mais inteligente do que nós enquanto indivíduos. Estamos rodeados por máquinas e peritos em que temos de confiar. Deparamo-nos com processos quotidianos (como o funcionamento do carro ou do computador) que somente peritos podem controlar. O volume de conhecimento que se consome mas não se compreende aumentou. «A civilização aumenta quando há mais coisas que se podem fazer sem pensar nelas. »


3. O que significa ser criativo?
  • Gerir informação. Saber onde encontrar o conhecimento, que conhecimento é prescindível ou opcional e que conhecimento deverá ser ignorado. Uma pessoa criativa é aquela que nos diz aquilo que precisamos de não saber. 
  • Gerir técnicas que nos permitam prosperar apesar das falhas no nosso conhecimento. Isto é o que deve ser ensinado: como prosperar sem saber tudo. 
  • Ser bem educado significa estar preparado para obliterar informação
  • A criatividade não é baseada em aprendizagem acumulativa, em que para solucionar qualquer problema ter-se-á de simplesmente aplicar um conjunto de regras. A aprendizagem criativa amplia o reportório de possibilidades: é a aprendizagem reflexiva. Não procura soluções mas sim tenta identificar problemas. Isto é crucial na sociedade do conhecimento. 
  • A aprendizagem criativa tem lugar num ambiente instável com fluxos constantes. Assim, há que estar preparado para uma aprendizagem que desestabiliza, que contradiz aquilo que já havia sido aprendido e que provoca reflexões e mudanças. A aprendizagem não é cumulativa, já que muda. Neste sentido, educar é difícil. O ensino dogmático é muito mais fácil. 
  • A verdadeira aprendizagem criativa aproveita a decepção. Os seres humanos têm uma grande tendência para se implicar em atividades de autorreforço (procurando na realidade a confirmação das suas próprias crenças). Porém, aquilo que é necessário é ‘ler o inimigo’ e procurarmos aquilo que nos está a escapar. Por outras palavras, teremos de reagir não pela modificação da realidade, mas sim das nossas expectativas.

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